Faltam poucas semanas para o Dia das Crianças e o comércio já está em ritmo de campanha. Vitrine montada, propaganda no ar, lista de desejo circulando entre os colegas de turma. É uma das datas mais previsíveis do calendário comercial brasileiro.
E também uma das mais reveladoras, se a escola souber olhar para ela.
Uma pesquisa da CNDL em parceria com o SPC Brasil, divulgada para o Dia das Crianças de 2026, mostra que 72% dos brasileiros pretendem presentear neste ano, movimentando cerca de R$ 10,93 bilhões no varejo. O gasto médio previsto é de R$ 200 por família. Até aí, nada muito diferente de anos anteriores.
O dado que chama atenção vem logo depois: 33% das famílias vão comprar presente mesmo estando com contas em atraso.
Um comportamento que a escola vê de longe, mas raramente nomeia
Esse número não é sobre falta de dinheiro. É sobre uma data que carrega peso emocional suficiente para furar o próprio planejamento financeiro da casa.
Ninguém quer ser o adulto que não presenteou no Dia das Crianças. A culpa pesa mais do que o boleto vencido. E é justamente esse tipo de decisão, tomada sob pressão emocional e não sob análise fria de orçamento, que a educação financeira comportamental se propõe a trabalhar.
Só que ela quase nunca chega na escola disfarçada de Dia das Crianças. Chega disfarçada de mesada, de simulador de investimento, de aula sobre juros. A data em si, que é onde o comportamento acontece de verdade, raramente vira conteúdo.
Vale reforçar: o objetivo aqui não é a escola pregar contra presentear ou promover uma campanha de “consuma menos” no meio de outubro. Isso soa moralista e não muda comportamento. O objetivo é usar a data, que já está acontecendo e já está no radar emocional do aluno, como material pedagógico real.
Quatro perguntas para transformar a data em aula
A FORME organiza a educação financeira em quatro pilares: Sonhar, Fazer, Cuidar e Multiplicar. O Dia das Crianças é uma das poucas datas do ano em que os quatro aparecem juntos, na vida real do aluno, sem precisar de simulação.
Sonhar. Antes da data chegar, vale pedir para o aluno escrever o que gostaria de ganhar, por ordem de prioridade, e não como lista solta. A diferença entre uma lista de desejos e um pedido com prioridade é a primeira lição de planejamento: nem tudo cabe, então o que vem primeiro?
Fazer. Aqui entra o exercício mais concreto: apresentar um valor limite, real ou simbólico, e pedir para o aluno escolher dentro dele. É o mesmo raciocínio que sustenta o simulador de investimentos da FORME, aplicado a uma decisão de consumo em vez de uma decisão de investimento. Escolher dentro de um limite é uma habilidade que se pratica, não que se explica.
Cuidar. Esse é o pilar mais desconfortável, porque não é só sobre a criança. É sobre o adulto que compra mesmo com a conta atrasada. A pausa entre sentir a pressão da data e agir sobre ela é exatamente o que falta nesse 1 em cada 3. A escola pode nomear esse comportamento sem julgar quem cai nele, simplesmente explicando que decisão tomada sob culpa raramente é a melhor decisão, para adulto ou para criança.
Multiplicar. Depois que o presente chega, o que acontece com o brinquedo do ano passado? Reaproveitamento, troca entre colegas, doação. É o fechamento natural do ciclo: o que se recebe também pode circular, e isso vale tanto quanto o que se ganha de novo.
O que a escola ganha ao entrar nessa conversa
Falar sobre a data não é oportunismo comercial disfarçado de pedagogia. É reconhecer que o aluno já está vivendo essa decisão em casa, com ou sem a escola, e que o silêncio sobre o assunto não protege ninguém.
Uma escola que consegue transformar o Dia das Crianças em uma conversa estruturada sobre desejo, limite e escolha está aplicando, na prática, o que a BNCC já pede desde 2020 como tema transversal: educação financeira não como matéria isolada, mas como repertório que aparece onde a vida do aluno já está acontecendo.
E é isso que sustenta a missão da FORME: desenvolver crianças e adolescentes financeiramente estáveis, capazes de planejar e conquistar metas e sonhos. Não é sobre ensinar a criança a querer menos. É sobre ensinar a nomear o que quer, decidir dentro de um limite e entender que toda escolha tem um custo, inclusive as boas.
Educar para transformar.
