Faltam poucos dias para o segundo turno de 25 de outubro.
O país saiu do primeiro turno dividido quase ao meio, e essa divisão não fica do lado de fora do portão. Ela entra na escola pela conversa do intervalo, pela pergunta que o aluno faz ao professor e pela mensagem que a família manda para a coordenação.
Este ano, porém, tem uma diferença importante. Política deixou de ser um assunto que a escola podia simplesmente evitar.
O que a Lei 15.468/2026 mudou
Sancionada em 13 de julho de 2026 e publicada no Diário Oficial no dia seguinte, a Lei nº 15.468/2026 acrescentou à LDB a educação política e os direitos da cidadania como conteúdo obrigatório da educação básica.
Três pontos interessam diretamente a quem dirige uma escola:
- Vale para escolas públicas e privadas, da educação infantil ao ensino médio.
- Não cria disciplina nova. O tema deve ser trabalhado de forma transversal, em componentes como História, Geografia e Sociologia.
- Entrou em vigor na data da publicação. Não houve período de adaptação.
O conteúdo esperado é institucional: como o país se organiza, o que fazem os Três Poderes, qual é o papel de vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidente, quais são os direitos e deveres de quem vive numa democracia.
Ou seja… a lei diz o que ensinar. Ela não diz como a escola se comporta quando a política entra na sala na forma de tensão. E essa parte é gestão.
Educação política não é posição partidária
Vale separar as duas coisas com clareza, porque é exatamente aí que nascem as crises.
Educação política é ensinar como as instituições funcionam, como se forma uma lei, como se vota, como checar uma informação antes de compartilhar, como discordar de alguém sem desqualificar a pessoa.
Posição partidária é dizer em quem votar.
A Constituição sustenta os dois lados dessa equação. O artigo 206 garante a liberdade de aprender e de ensinar e, na mesma lista, o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas. A escola que trabalha educação política com seriedade não está tomando partido. Está formando gente capaz de escolher o próprio.
O problema é que, sem regra escrita, cada pessoa da equipe interpreta essa fronteira do seu jeito. E em mês de segundo turno, a família não diferencia a opinião de um colaborador da posição da instituição.
Três decisões que a direção precisa tomar agora
1. Escrever a regra antes da crise, não depois
Uma página basta. O documento precisa responder:
- O que é conteúdo pedagógico (instituições, processo eleitoral, direitos, leitura crítica de informação).
- O que não acontece em nome da escola (manifestação de preferência partidária, material de campanha, uso de canais institucionais para posicionamento eleitoral).
- Que a regra vale igualmente para qualquer lado do espectro político.
Esse último ponto é o que dá legitimidade ao resto. Regra que só se aplica a um lado não é neutralidade, é outra forma de posição.
2. Preparar o professor para a pergunta que ele vai ouvir
“Professor, em quem você vai votar?”
Essa pergunta vai aparecer. Se cada docente responder do seu jeito, a escola terá vinte respostas diferentes circulando entre as famílias.
A gente sabe que não é simples. Por isso, a coordenação precisa combinar com a equipe uma resposta comum, firme e respeitosa, que devolva a pergunta para o terreno pedagógico: “Meu voto é meu. O que a gente pode fazer aqui é entender como cada proposta funciona e como avaliar uma informação.”
Vale também combinar regras para debate em sala: argumento acompanhado de fonte, nenhuma desqualificação pessoal, e mediação ativa do professor quando a temperatura sobe.
3. Ter um protocolo para a reclamação da família
Em algum momento, uma família vai entender que uma aula foi tendenciosa. Às vezes com razão, às vezes por um trecho de fala que chegou sem contexto.
O que decide se isso vira crise é a resposta da escola nas primeiras horas. O protocolo precisa definir:
- Por qual canal a reclamação é recebida.
- Quem responde (a coordenação, nunca o professor sozinho).
- Em quanto tempo.
- Como o caso é registrado.
Ouvir antes de concluir protege a família, protege o professor e protege a instituição. Professor que precisa se defender sozinho diante de uma acusação política dificilmente volta a tratar do tema com tranquilidade. E aí a escola perde justamente o que a lei pediu.
O ponto cego: a comunicação da própria escola
Muita escola cuida da sala de aula e esquece a vitrine.
Em outubro, o post nas redes sobre o “dia de votar”, a nota sobre o funcionamento do prédio quando ele é seção eleitoral, a mensagem de segunda-feira depois do resultado… tudo isso é lido com lupa por famílias que votaram de formas diferentes.
A regra prática é simples: a escola comunica o processo, não o resultado que preferia. Calendário, funcionamento, cidadania, respeito ao voto de cada um.
O mesmo vale para quem fala pela escola nas redes pessoais com o uniforme, o crachá ou o nome da instituição em evidência. Não se trata de calar ninguém. Trata-se de deixar claro quando a pessoa fala por si e quando fala pela escola.
Por que isso também é assunto de gestão financeira
Pode parecer distante do caixa. Não é.
Crise de reputação em escola particular aparece na rematrícula. Família que se sente desrespeitada na própria convicção não reclama só uma vez… ela começa a procurar alternativa. E a família que vê a escola conduzindo o tema com equilíbrio sai da eleição confiando mais na instituição, independentemente de quem venceu.
Neutralidade institucional bem construída é proteção de vínculo. E vínculo é o que sustenta a matrícula.
Onde a FORME entra nessa conversa
A educação política conversa diretamente com a educação financeira. Entender de onde vem o dinheiro público, para onde vai o imposto e como uma decisão coletiva afeta o orçamento de cada família é cidadania na prática.
Na FORME, esse diálogo aparece ao longo dos 4 pilares, Sonhar, Fazer, Cuidar e Multiplicar, com material do infantil ao médio alinhado à BNCC. O pilar Cuidar, em especial, trabalha algo que este momento pede: a pausa entre sentir e reagir.
E como a nossa assessoria pedagógica é humanizada e também apoia projetos paralelos da instituição, ela pode ajudar a sua equipe a estruturar uma política interna como esta, sem que a coordenação precise começar do zero em pleno outubro.
A eleição termina no dia 25. A formação de cidadãos que sabem discordar com respeito… essa começa muito antes e continua muito depois.
Educar para transformar.
