Uma mão jovem entrega uma chave laranja luminosa para uma mão adulta que surge da escuridão; texto: Ninguém entrega a chave sabendo o que ela abre.

Metade das vítimas de golpe financeiro no Brasil tem a idade do seu ex-aluno

Todo ano a escola forma uma turma de terceiro ano e assiste ela sair pelo portão.

Nos meses seguintes, esses alunos abrem a primeira conta que é só deles. Recebem o primeiro salário de estágio. Instalam o aplicativo do banco no celular. E entram, sem nenhum aviso prévio, no grupo mais visado por fraude financeira do país.

Não é força de expressão. É o que os números mostram.

O alvo preferido tem a idade do seu ex-aluno

Levantamento da Quod, datatech especializada em inteligência de dados para o mercado de crédito, com base no Registro Unificado de Fraudes, apontou mais de 9 milhões de indícios de fraude financeira no Brasil só no primeiro semestre de 2026. Um crescimento de cerca de 10% em relação ao semestre anterior.

Desse total, 3,1 milhões de pessoas foram efetivamente vítimas. E aproximadamente 799 mil caíram duas vezes ou mais no mesmo período.

O dado que interessa à escola é o recorte de idade: jovens de 18 a 34 anos representam praticamente metade das vítimas.

Não são os mais velhos. Não são os menos conectados. São justamente os que cresceram com celular na mão, os que aprenderam a usar Pix antes de aprender a ler um contrato.

E o método mais comum não é técnico. Engenharia social, ou seja, manipulação psicológica para conseguir informação ou convencer alguém a transferir dinheiro, respondeu por 40% dos registros. Mais de 3,6 milhões de ocorrências. Em 78% dos casos o celular foi o canal, e 85% das transações fraudulentas passaram por Pix.

Ou seja: o golpe não invade o sistema. Ele convence a pessoa.

Informação não protege ninguém

Esse é o ponto que costuma ser mal compreendido nas ações de prevenção.

Praticamente todo jovem já ouviu que existe golpe do falso emprego, golpe do falso investimento, golpe do link estranho. A informação circula. Bancos avisam, portais avisam, o grupo da família avisa.

Mesmo assim, metade das vítimas está nessa faixa etária.

Porque golpe bem construído não é vencido por informação. Ele é construído exatamente em cima das coisas que informação não alcança: pressa, vergonha de perguntar, medo de perder uma oportunidade, autoridade aparente de quem está do outro lado, e a sensação de que só ele foi escolhido.

Tudo isso é comportamento. E comportamento não se resolve em palestra de uma hora.

Um jovem que nunca precisou explicar uma decisão financeira em voz alta, que nunca simulou o que acontece depois de um “sim” apressado, que nunca praticou dizer “vou pensar e te respondo amanhã”, vai enfrentar o primeiro golpe sem nenhuma referência interna para se apoiar.

Ele não vai cair por burrice. Vai cair porque ninguém treinou aquela pausa.

O golpe que transforma a vítima em ré

Existe uma camada nova nessa história que quase nenhuma escola está discutindo.

Em 4 de maio de 2026 foi sancionada a Lei nº 15.397/2026, que alterou o Código Penal para tipificar de forma expressa a cessão de conta bancária para movimentação de recursos de origem criminosa, o que o noticiário chama de “conta laranja”. A conduta passou a ter pena de reclusão de um a cinco anos, além de multa. A mesma lei agravou a punição para fraude eletrônica, com pena de quatro a oito anos.

Vale ler com atenção o que a lei descreve: ceder a conta, de forma gratuita ou onerosa.

De graça também conta.

E é aí que mora o problema para quem tem 18, 19 anos. O convite quase nunca chega com cara de crime. Chega como renda extra fácil, como favor para um conhecido, como “só vai passar um dinheiro na sua conta e você repassa”, como suposta vaga de trabalho remoto que pede os dados bancários no primeiro contato.

O jovem que aceita isso não se enxerga cometendo nada. Ele se enxerga ajudando, ou ganhando um troco.

Meses depois, é a conta dele que aparece no processo.

Levantamentos do setor financeiro vêm registrando crescimento expressivo de contas com indício desse tipo de uso nos últimos anos. E o perfil de quem é abordado é bastante previsível: gente jovem, com conta recém-aberta, sem histórico, com pouca renda e muita disposição para acreditar que apareceu uma oportunidade.

Onde isso entra na rotina da escola

Não entra como aula sobre golpes. Entra como formação de comportamento, ano após ano, muito antes de o assunto ficar urgente.

É exatamente o desenho dos quatro pilares que organizam o material da FORME.

Sonhar. Quem sabe nomear o próprio objetivo tem com o que comparar a oferta que aparece. A promessa de ganho fácil só convence quem não tem um plano próprio para colocar do outro lado da balança.

Fazer. Decidir precisa ser praticado num lugar onde errar é barato. O simulador de investimentos da FORME cumpre esse papel: o aluno testa cenários, escolhe conforme o próprio perfil e vê a consequência aparecer, sem que o dinheiro seja real. É onde ele aprende que retorno alto e risco alto andam juntos, e essa é a única vacina que existe contra a promessa boa demais.

Cuidar. Aqui está o núcleo da prevenção. Cuidar é a autorregulação, a pausa entre receber a proposta e responder. É aprender que pressão por decisão imediata é, por si só, um sinal de alerta. E é também aprender a perguntar sem vergonha, porque boa parte das vítimas percebe que algo está errado e mesmo assim segue, para não parecer desinformada.

Multiplicar. Quem entende como o dinheiro cresce de verdade, com tempo e constância, perde o encantamento pelo atalho. Não porque foi proibido, mas porque passou a enxergar a conta.

O que a escola ganha com isso

Ganha coerência, primeiro.

A instituição que fala de projeto de vida, de futuro e de autonomia e não prepara o aluno para o ambiente financeiro real que o espera do lado de fora está entregando metade do combinado.

Ganha vínculo com a família, também. Esse é um dos poucos assuntos que a escola pode levar ao responsável sabendo que ele serve tanto para o filho quanto para o adulto, porque o adulto está exposto à mesma engenharia de persuasão.

E ganha tempo, que é a vantagem real de quem trabalha com educação básica. Uma trilha contínua do infantil ao médio, alinhada à BNCC, tem quinze anos para formar a pausa que um curso de emergência aos dezoito não forma.

A missão da FORME é desenvolver crianças e adolescentes financeiramente estáveis, capazes de planejar e conquistar metas e sonhos. Proteger o que foi construído faz parte disso, e é uma habilidade tão formável quanto qualquer outra.

O golpe vai chegar. A pergunta é se o seu aluno vai chegar antes.

Educar para transformar.