Um adolescente de 16 anos abre o celular, digita uma pergunta sobre onde aplicar o dinheiro que juntou e recebe uma resposta em poucos segundos. Bem escrita. Segura. Convincente.
Ele não checa a fonte. Não pergunta o que ficou de fora. Não desconfia.
Esse cenário deixou de ser hipótese. A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa da ANBIMA em parceria com o Datafolha que ouviu 5.832 pessoas de 16 anos ou mais em todo o país, mostrou que 49% dos investidores da Geração Z já usam inteligência artificial para buscar dados sobre produtos financeiros e mercados. Entre os millennials, o percentual cai para 36%. Entre os boomers, praticamente desaparece.
Considerando toda a população, e não só quem já investe, a Geração Z acessa oito vezes mais ferramentas de IA do que a geração com mais de 60 anos.
E tem um detalhe que diz muito sobre o mundo em que seus alunos vão tomar decisões: entre os jovens, a IA já aparece à frente da televisão como canal de informação sobre investimentos. São 17% contra 11%.
O problema não é a inteligência artificial
Vale dizer isso com clareza, porque a leitura fácil seria transformar o dado em pânico.
A IA não é o vilão da história. Ela é uma ferramenta boa, disponível e provavelmente irreversível na rotina dessa geração. Proibir não é estratégia. E escola que tenta proibir tecnologia costuma perder a conversa antes de começar.
O ponto é outro, e foi o próprio superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da ANBIMA, Marcelo Billi, quem colocou o dedo na ferida ao comentar a pesquisa: um dos perigos é que a IA tenta muito agradar quem pergunta.
Pense no que isso significa na prática.
Um adulto experiente que recebe uma resposta enviesada tem repertório para desconfiar. Ele já viu promessa de retorno alto dar errado. Já perdeu dinheiro em alguma coisa. Já ouviu alguém dizer que era garantido e não era.
Um adolescente não tem esse acervo. Ele recebe uma resposta articulada, alinhada com o que ele já queria ouvir, e não tem com o que comparar.
A tecnologia ficou sofisticada. O repertório para questioná-la, não.
O número que deveria entrar na próxima reunião pedagógica
A mesma pesquisa trouxe um dado que, na nossa leitura, é o mais importante de todos para quem dirige uma escola.
Entre as pessoas que tiveram acesso a educação financeira, 21% enxergam apostas online como se fossem investimento.
Entre as que não tiveram esse acesso, o percentual sobe para 77%.
Leia de novo, porque é uma diferença de 56 pontos percentuais.
Não estamos falando de conhecimento técnico sobre renda fixa ou de saber calcular juros compostos. Estamos falando de algo bem mais básico: a capacidade de distinguir o que faz o dinheiro crescer do que apenas parece fazer.
E o mesmo levantamento mostra que 27% da Geração Z declara gastar dinheiro em apostas, contra 4% de quem tem mais de 60 anos.
Ou seja, a geração que mais aposta é exatamente a que mais consulta IA, a que mais consome conteúdo financeiro no YouTube e no Instagram, e a que menos teve formação estruturada para filtrar tudo isso.
A informação nunca esteve tão disponível. O critério para usá-la é que continua escasso.
Repertório é o que a escola pode oferecer
Aqui está a parte que interessa à gestão escolar, e ela é mais simples do que parece.
Nenhuma escola vai controlar qual IA o aluno consulta no fim de semana. Nem deveria tentar.
O que a escola pode fazer é formar alguém que saiba fazer três coisas diante de qualquer resposta, venha ela de um algoritmo, de um influenciador ou de um colega de sala:
- Perguntar de onde vem essa informação.
- Perguntar o que ela não está me contando.
- Perguntar se isso serve para o meu objetivo, e não para o objetivo de quem está falando.
Isso não é aula de tecnologia. É educação financeira socioemocional e comportamental, trabalhada de forma contínua ao longo da jornada escolar.
É exatamente o desenho dos quatro pilares que organizam o material da FORME.
Sonhar é o que dá ao aluno um objetivo próprio. Sem isso, ele adota o objetivo de quem estiver falando mais alto naquele dia.
Fazer é a prática. É o aluno experimentando decisão e consequência num ambiente onde errar não custa caro. O simulador de investimentos da FORME nasceu para isso: o estudante testa cenários, vê o que acontece com cada escolha e entende na prática por que o resultado prometido nem sempre é o resultado obtido.
Cuidar é a autorregulação. É a pausa entre receber a resposta e agir sobre ela. É o pilar que mais protege esse aluno diante de uma tela que responde rápido, com segurança e sem contraditório.
Multiplicar é a noção de crescimento real, construído com tempo. É o antídoto conceitual mais direto contra a promessa de ganho fácil.
Uma pauta que a escola pode liderar agora
Poucos temas colocam a instituição numa posição tão confortável quanto este.
A família está preocupada com o que o filho vê no celular. O aluno já está usando a ferramenta. E a discussão pública sobre IA e dinheiro está no auge.
A escola que abrir essa conversa primeiro não vai parecer atrasada nem alarmista. Vai parecer atenta.
E dá para fazer isso sem inventar um projeto do zero. A FORME entrega material do infantil ao médio alinhado à BNCC, assessoria pedagógica humanizada que acompanha a implantação e ajuda inclusive em projetos paralelos da instituição, e uma plataforma para famílias com cursos gratuitos, para que a conversa não pare no portão da escola.
A missão continua a mesma: desenvolver crianças e adolescentes financeiramente estáveis, capazes de planejar e conquistar metas e sonhos.
Só que agora eles vão fazer isso conversando com máquinas que respondem tudo.
Cabe à escola garantir que eles saibam o que perguntar.
Educar para transformar.
Fontes: Raio X do Investidor Brasileiro, 9ª edição, ANBIMA em parceria com o Datafolha (anbima.com.br); reportagens do InvestNews (investnews.com.br) e do Poder360 (poder360.com.br).
